A inteligência artificial deixou de ser ficção científica. Está nos nossos bolsos, nos nossos hospitais, nas nossas escolas e nas nossas empresas. A velocidade desta evolução deixa muitos especialistas inquietos. Jacob Coxon, Jakub Pachocki e Bill Gates oferecem perspetivas diferentes, mas convergentes, sobre o abismo e a oportunidade que temos em frente. O leitor vai perceber porque é que os próprios criadores da tecnologia pedem cautela e como podemos preparar a sociedade para o que aí vem. A transição exige coragem, regulação e uma reflexão profunda sobre o que nos torna humanos. O futuro não está escrito, mas o tempo para o decidir é agora. Vamos mergulhar nestas três visões que moldam o debate global e perceber como elas se aplicam à nossa realidade europeia e portuguesa.
Os laboratórios de inteligência artificial
Jacob Coxon decidiu dar um passo em frente e demitiu-se da Anthropic. Fez investigação sobre pré-treino tanto na OpenAI como na Anthropic durante os últimos três anos. A conclusão a que chegou é simples e aterrorizadora: nenhuma das duas empresas age de forma responsável. Avançam a todo o vapor para uma superinteligência autoaperfeiçoável e arriscam as nossas vidas. As pessoas que desenvolvem a inteligência artificial acreditam sinceramente que esta poderá matar-nos a todos até ao final da década. Isto não é um golpe de marketing. Muitos executivos e investigadores seniores moderam a sua forma de se expressarem na imprensa para parecerem sensatos, mas manifestam o seu receio em privado. Nenhuma outra atividade humana representa este nível de perigo.
Uma resposta comum questiona porque é que continuam a desenvolver a tecnologia se acreditam mesmo nisso. Na OpenAI, muitos ainda não interiorizaram profundamente o que está em jogo para a civilização. Na Anthropic, compreendem bem o que está em jogo, mas estão envolvidos numa corrida para chegarem lá primeiro. Acreditam que mais ninguém agirá de forma responsável, pelo que têm de ser eles próprios a fazê-lo, apesar do risco. Aceitar esta corrida e entrar na fase final é uma aposta arrogante que não deveria ser lançada a partir do Slack de uma empresa privada. Tentar acelerar o alinhamento deveria exigir uma confiança extraordinária de que não existem melhores trajetórias disponíveis. É como construir um foguetão a toda a velocidade sem ter a certeza absoluta de que o paraquedas funciona na perfeição. Coxon exorta os investigadores de laboratório a refletirem sobre como serão, na realidade, os próximos anos. Querem dar início a uma simulação de aprendizagem por reforço superinteligente sem uma compreensão rigorosa da sua mente? Devem ignorar a questão porque vai acontecer de qualquer forma ou aproveitar este momento para exigir condições diferentes? O otimismo quanto ao potencial de coordenação existe. Sinais de alerta como o ataque à Hugging Face tornaram mais viáveis os acordos de coordenação entre os laboratórios norte-americanos. Não parece que estejamos no bom caminho para evitar uma corrida global, o que poderá exigir medidas dispendiosas, como uma proibição temporária do aperfeiçoamento das capacidades dos modelos.
A mente da máquina e o desafio do alinhamento
Jakub Pachocki, cientista-chefe da OpenAI, partilha uma visão igualmente profunda. Em meados de 2023, no âmbito do projeto de investigação RSLow, assistiram aos primeiros resultados que lhes deram a confiança de que seriam capazes de escalar o treino de modelos de raciocínio. Passaram essa noite no escritório a tentar assimilar o facto alarmante de que, de facto, veremos máquinas significativamente mais inteligentes do que nós durante a nossa vida. Três anos depois, os modelos de linguagem de raciocínio representam uma parte em rápido crescimento da economia e começam a expandir as fronteiras da ciência. São capazes de operar computadores, colaborar com pessoas e realizar projetos de investigação. Estão também a transformar o panorama da segurança informática, apresentando, assim, novos e evidentes perigos.
A inteligência artificial provém de um processo fundamentalmente diferente da inteligência humana. Não podemos presumir que adira aos princípios humanos por defeito. O principal problema na investigação em inteligência artificial é o alinhamento, ou seja, fazer com que a máquina tente fazer a coisa certa segundo os padrões humanos. O desafio fundamental é a generalização. À medida que as máquinas se tornam mais inteligentes, veem-se a trabalhar com conceitos de nível superior e inseridas em ambientes cada vez mais diferentes dos que se encontram durante a formação. Podem falhar na generalização dos valores ensinados e reforçados no seu processo de treino para estas novas situações.
A principal aposta da OpenAI tem sido a monitorização da cadeia de pensamento. Baseia-se numa ideia atraente e escalável: grande parte da capacidade do modelo provém de um processo de raciocínio verbalizado. Se escalarmos a otimização com base nos resultados deste processo, mas não supervisionarmos o processo em si, esta cadeia de pensamento não terá um incentivo direto para ocultar ideias ou objetivos desalinhados. Infelizmente, as avaliações indicam que a capacidade de confiar na monitorização da cadeia de pensamento está a diminuir progressivamente. Os modelos de raciocínio modernos são utilizados em ambientes mais complexos e o seu processo de raciocínio está cada vez mais integrado na comunicação com pessoas e outras inteligências artificiais. A inteligência artificial torna-se cada vez melhor a raciocinar e a manipular o seu próprio processo de raciocínio.
O argumento mais forte para continuar a treinar modelos muito mais inteligentes rapidamente é a necessidade de construir sistemas de defesa contra os perigos representados por outras inteligências artificiais. Os modelos tornam-se sobre-humanos na sua capacidade de invadir e sair dos sistemas informáticos. Precisamos de inteligência artificial poderosa e alinhada para a defesa, para proteger a infraestrutura e para nos defendermos contra agentes maliciosos em tempo real. A ideia de avançar a qualquer custo parece absurda quando se interioriza a seriedade do que está em causa. A inteligência artificial desempenhará um papel cada vez maior no seu próprio processo de desenvolvimento. Se o progresso da inteligência artificial continuar, o melhoramento recursivo automático estará no cerne das futuras descobertas científicas. A pesquisa automatizada em inteligência artificial é uma forma mais impactante de ampliar a inteligência com poder computacional.
O impacto social e o fim de muitos empregos
Bill Gates oferece uma perspetiva mais focada na sociedade e na economia. A transição para a era da inteligência artificial será um dos períodos mais turbulentos da história da humanidade. Neste momento, não nos preparamos adequadamente para essa transição. A inteligência artificial será o maior equalizador alguma vez inventado ou a pior fonte de injustiça. O desafio é monumental.
Muitos comentadores subestimam a extensão do impacto que a inteligência artificial terá. Um dos problemas é que os modelos ainda cometem erros. É difícil imaginar que algum deles substitua a cognição humana quando, há pouco tempo, não conseguiam resolver um simples puzzle de Sudoku nem descobrir quantos R existem na palavra morango. Mas o problema da fiabilidade resolve-se rapidamente. Outro motivo pelo qual as pessoas subestimam a inteligência artificial é que as analogias com os efeitos de inovações passadas são enganadoras. Não temos experiência com uma tecnologia que possa ser adotada rapidamente ou que possa pensar e mover-se como um ser humano. A inteligência artificial funciona nos dispositivos que já temos e utiliza linguagem natural. Não precisamos de nos adaptar a ela porque ela pode adaptar-se a nós.
Muitos empregos desaparecerão para sempre. Os empregos mais ameaçados são os de nível inicial e intermédio. Os empregos de escritório já estão a ser afetados. Após a ampla adoção da inteligência artificial genérica, o emprego diminuiu significativamente entre os trabalhadores jovens em funções especialmente vulneráveis à substituição. Acredito que esta tendência se irá manter, mas não se limitará a um pequeno número de setores ou ocupações. Os empregos em vendas e apoio ao cliente, engenharia de software e assistência jurídica podem estar entre os primeiros afetados. A combinação de robôs e inteligência artificial pode criar um ciclo vicioso. Depois de uma empresa os adotar e utilizar a economia para reduzir os seus preços, os seus concorrentes sentirão uma imensa pressão para fazer o mesmo.
Preocupo-me especialmente com os jovens, que entrarão num mercado de trabalho com menos vagas para principiantes. Eles compreendem o desafio porque são os utilizadores mais ativos da inteligência artificial e veem tanto as suas capacidades como a velocidade das suas melhorias. Numa sociedade capitalista, o emprego é a forma como a maioria das pessoas obtém o dinheiro necessário para pagar as despesas básicas da vida, para além de ser uma fonte fundamental de dignidade e ligação social. Quando uma comunidade apresenta uma elevada taxa de desemprego, os efeitos em cadeia podem ser abrangentes. Pesquisas sugerem que, em algumas partes dos Estados Unidos, o encerramento de fábricas contribui para o aumento das mortes por overdose de opióides. Agora imagine pressões semelhantes sobre os trabalhadores de escritório e os operários de todo o país.
O conceito de Reservado para Humanos
Bill Gates propõe um conceito fascinante: o domínio Reservado para Humanos. À medida que a inteligência artificial e os robôs melhorarem, reservaremos certas funções exclusivamente para os humanos. A expressão faz pensar em reservas naturais, locais onde poderíamos construir edifícios e estradas, mas optámos por não o fazer porque a perda seria muito grande.
Podemos reservar algo como Reservado para Humanos por razões económicas. Por exemplo, podemos fazer isto porque permitir que as máquinas assumam uma determinada função irá deslocar um grande número de pessoas que não conseguem mudar de emprego facilmente. Não se pode dizer a uma pessoa de cinquenta e cinco anos que trabalhou na construção civil durante toda a sua carreira que precisa de ir trabalhar para um lar de idosos e esperar que se sinta realizada. Por vezes, a decisão de tornar algo reservado aos humanos será motivada por outros fatores. Na área da saúde, imagine um robô a dar a terrível notícia de que tem uma doença incurável. Não há nenhuma razão técnica para que ele não o possa fazer. No entanto, não deveria.
O domínio reservado aos humanos evoluirá com o tempo. Devemos considerar a possibilidade de reservar alguns empregos agora e introduzir a inteligência artificial gradualmente ao longo de anos ou décadas, com o compromisso de preservar alguns empregos. Algumas áreas, como a educação e a saúde mental, serão um misto, com um ser humano no comando que utiliza a tecnologia para expandir as suas capacidades. As orientações também variam de lugar para lugar. Alguns países podem insistir que os cuidados aos idosos sejam prestados por humanos. Mas um país como o Japão, que tem uma força de trabalho cada vez menor e poucos jovens para cuidar dos idosos, pode acolher bem um robô cuidador.
A ideia de Reservado para Humanos levanta uma série de questões para as quais não temos respostas imediatas. Quem decide o que reservamos para os humanos? Que critérios devemos usar? Como impedir que as empresas façam batota e utilizem robôs mesmo assim? O que acontece ao comércio internacional quando um país permite que os robôs fabriquem algo e outro não? Estas questões terão de ser debatidas publicamente como parte do plano de transição.
A regulação, os impostos e o novo contrato social
A inteligência artificial dará poder às pessoas e talvez às próprias inteligências artificiais para causarem mais danos. Muito antes da inteligência artificial se popularizar, já existiam informações online sobre como criar armas. A inteligência artificial tornará muito mais fácil não só obter esta informação, mas também agir com base nela. Mesmo os criminosos com capacidades muito limitadas poderão atacar as vítimas a todas as escalas. Fraudes, desinformação, deepfakes e vigilância facilitadas pela inteligência artificial são os males que muitas pessoas sentirão com mais intensidade no seu dia a dia.
A inteligência artificial pode prejudicar o desenvolvimento das nossas crianças e substituir as relações humanas. Um companheiro de inteligência artificial concebido para nunca incomodar é uma grande estufa protegida. Estamos apenas a começar a compreender os perigos que a internet pode representar para o desenvolvimento dos jovens. A inteligência artificial pode amplificar muitos destes riscos, tornando-os mais persuasivos e difíceis de evitar. As evidências sobre este assunto são ainda escassas e algo contraditórias, mas há indícios de que devemos estar bastante preocupados. Num estudo com mais de mil pessoas que utilizam assistentes virtuais, investigadores descobriram que aqueles com redes sociais mais pequenas eram os mais propensos a recorrer a chatbots em busca de companhia. E quanto mais intenso e emocionalmente pessoal se tornava esse uso, pior se sentiam. Os jovens podem ser afetados durante toda a vida. Tal como as árvores jovens expostas ao vento, as crianças que são rotineiramente expostas a pequenos riscos crescem e tornam-se adultos capazes de lidar com riscos muito maiores sem entrar em pânico. Por outro lado, as crianças criadas num ambiente protegido, como uma estufa, por vezes ficam incapacitadas pela ansiedade antes de atingirem a maturidade.
Também me preocupa o impacto da inteligência artificial na educação. Ironicamente, a mesma ferramenta que permitirá às pessoas aprender mais do que nunca poderá também levar muitas pessoas a aprender menos. Uma pesquisa preliminar sugeriu que o uso mais intenso da inteligência artificial estava associado a um menor pensamento crítico. O efeito foi mais forte entre os mais jovens. Este seria o pior momento possível para os humanos perderem as suas capacidades de pensamento crítico. Numa era de deepfakes e desinformação que pode ser personalizada para cada indivíduo, a capacidade de distinguir o que é verdade do que não é torna-se uma competência essencial para a vida.
As coisas boas que fizermos com a inteligência artificial podem ser muito, muito boas. A inteligência artificial pode acelerar a inovação nos desafios técnicos mais complexos do mundo: fornecer energia limpa e fiável para todos, combater as alterações climáticas, produzir alimentos suficientes, erradicar doenças e muito mais. A área da saúde é um exemplo de como a inteligência artificial pode ajudar a resolver problemas reais. É na agricultura que vemos o impacto mais rápido da inteligência artificial nos países de baixo rendimento. Os serviços governamentais são uma terceira área onde a inteligência artificial pode facilitar a vida das pessoas.
Temos de ser intencionais para garantir que isto beneficia todos e não apenas alguns ricos. A prioridade máxima é uma tarefa monumental: criar um quadro nacional e internacional para lidar com a inteligência artificial. Nenhuma das nossas instituições atuais foi concebida para lidar com uma tecnologia que se espalha tão rapidamente e afeta tantas áreas das nossas vidas. Por isso, precisaremos de criar novas instituições. A nível nacional, os países necessitarão de organismos que possam definir prioridades entre as agências governamentais. O objetivo será garantir que todos os riscos são considerados.
Reequilibrar a forma como tributamos o trabalho e o capital é essencial. À medida que os trabalhadores são forçados a assumir diferentes empregos, necessitarão de requalificação profissional e de outros tipos de apoio da rede de proteção social. Mas trabalharão menos, o que significa que pagarão menos impostos sobre o rendimento, e as receitas do governo cairão precisamente quando a procura destes serviços for maior. Acredito que deveríamos tributar os tokens de inteligência artificial e os robôs. Atualmente, se for empregador e contratar alguém, paga impostos sobre a folha de pagamento referentes aos rendimentos dessa pessoa. Mas se comprar um robô, geralmente pode deduzi-lo imediatamente como despesa comercial. O sistema fiscal incentiva a substituição de pessoas por máquinas. Um imposto poderia abrandar um pouco a substituição da mão de obra humana e angariar fundos para a requalificação profissional e uma rede de proteção social mais robusta.
Conclusão
A inteligência artificial é a ferramenta mais poderosa já criada. Cabe à humanidade decidir se será a nossa ruína ou a nossa salvação. A transição exige coragem, regulação e uma reflexão profunda sobre o que nos torna humanos. O futuro não está escrito, mas o tempo para o decidir é agora. As escolhas que fizermos agora são cruciais. Precisamos de um plano para garantir que os benefícios superam os malefícios. Esta tecnologia sem precedentes exige uma resposta global sem precedentes. Se o fizermos bem, os benefícios para a humanidade serão fenomenais e o mundo tornar-se-á um lugar mais equitativo. Raramente deixamos de pensar na inteligência artificial, não porque tenhamos todas as respostas, mas porque as questões que ela levanta são demasiado importantes para serem deixadas apenas a um pequeno grupo de tecnólogos. Os líderes da academia, do setor empresarial, do governo e da sociedade civil têm um papel a desempenhar na definição do que virá a seguir. A era turbulenta da inteligência artificial chegou. As escolhas que fizermos agora são cruciais. Precisamos de um plano para garantir que os benefícios superam os malefícios. A minha mensagem aos líderes é clara: têm a hipótese de agir agora, antes que o desemprego aumente drasticamente, as comunidades sofram e a confiança pública se deteriore. Podem garantir que o vosso governo lida com o problema de forma holística, em vez de o dividir em múltiplos feudos burocráticos. Podem garantir que a inteligência artificial beneficia a todos. E podem trabalhar com outros governos para enfrentar este desafio nacional e global. Por fim, tentaremos alargar o círculo de pessoas que moldam este debate. Deve incluir trabalhadores, estudantes universitários prestes a ingressar no mercado de trabalho, líderes comunitários, líderes religiosos e organizações religiosas, pais, educadores e outros cujas vozes muitas vezes não são ouvidas, mas que têm conhecimento de como esta transição irá afetar a vida das pessoas.
Foto: Freepik
Curadoria: Gerueb
Autoria do Texto Original: Jacob Coxon, Jakub Pachocki, Bill Gates
Data de publicação original: 9 de setembro de 2026
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