Em 2026, o fascismo já não marcha com botas nas ruas. Usa algoritmos, bases de dados biométricas e contratos governamentais assinados sem debate público. O termo “tecnofascismo” usado por historiadores e jornalistas para descrever a fusão entre autoritarismo político e tecnologia de vigilância avançada deixou de ser uma especulação distópica. Tornou-se realidade operacional, e o Reino Unido é um dos seus principais patrocinadores. A Palantir Technologies, empresa cofundada por Peter Thiel, não é apenas uma fornecedora de software; é um vetor de influência política com ambições antidemocráticas bem documentadas. E os contribuintes britânicos estão a financiá-la generosamente.
1. A máquina de vigilância em ação: o caso do ICE e dos dados de saúde
Nos Estados Unidos, a Palantir desenvolveu para o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) uma ferramenta chamada ELITE (Enhanced Leads Identification & Targeting for Enforcement). Esta plataforma cruza dados sensíveis, incluindo registos do Medicaid, o programa de saúde pública norte-americano, para identificar, localizar e atribuir “pontuações de confiança” a indivíduos considerados alvos de deportação. Um acordo recente permitiu ao ICE aceder aos dados de saúde de quase 80 milhões de pessoas. Um agente filmado em Minneapolis afirmou abertamente: “Temos uma grande base de dados. E agora é considerado um terrorista doméstico”.
Esta prática viola princípios fundamentais da privacidade médica e transforma serviços de saúde em instrumentos de perseguição estatal. O que acontece lá é um ensaio geral. E o modelo está a ser replicado aqui.
2. A Palantir no coração do Estado britânico
O Reino Unido não é um observador passivo. É o segundo maior cliente da Palantir a nível global. A empresa detém contratos governamentais que somam pelo menos 670 milhões de libras, incluindo um contrato de 15 milhões de libras com a agência responsável pelas armas nucleares britânicas. Em 2023, o Serviço Nacional de Saúde (NHS) atribuiu-lhe um contrato de 480 milhões de libras para gerir a sua Plataforma Federada de Dados, que centraliza os registos médicos de toda a nação.
A liderança da Palantir no Reino Unido reforça as preocupações. Louis Mosley, seu representante principal, é neto de Oswald Mosley, fundador da União Britânica de Fascistas nos anos 1930. Embora Mosley defenda a separação entre legado familiar e função profissional, a coincidência ideológica é perturbadora, sobretudo dada a natureza dos sistemas que a empresa implementa.
3. Uma rede de poder transatlântica
A influência da Palantir não se limita a contratos. Estende-se por uma rede de elite que conecta Silicon Valley, Washington e Londres. Peter Thiel, seu cofundador, é um declarado cético da democracia, tendo afirmado que “liberdade e democracia” são incompatíveis. Ele defende “cidades startup” enclaves privatizados sem eleições nem supervisão ética como alternativa à governação democrática.
No Reino Unido, essa rede já tem rostos conhecidos. Em fevereiro de 2025, o primeiro-ministro Keir Starmer visitou a sede da Palantir em Washington, acompanhado pelo embaixador Peter Mandelson, cuja consultora tem a Palantir como cliente. A visita, descrita como “informal”, levanta questões sobre a normalização de relações com uma entidade cujos métodos e ideologia ameaçam os valores democráticos europeus.
4. Tecnologia como substituto da política
A filosofia de Thiel é clara: a tecnologia deve substituir a política. Num discurso de 2010, afirmou que, em vez de “convencer, implorar e suplicar” a uma maioria democrática, uma minoria tecnologicamente capacitada pode “mudar o mundo unilateralmente”. Esta visão elitista, onde o poder reside não nos cidadãos, mas nos engenheiros de dados e CEOs, é a essência do tecnofascismo.
Quando uma empresa com esta visão controla os dados de saúde de uma nação inteira, gere a logística de defesa nuclear e fornece ferramentas para rotular manifestantes como terroristas, não se trata de mero outsourcing. Trata-se de uma transferência de soberania para uma entidade privada, estrangeira e ideologicamente hostil aos princípios do Estado de Direito.
Conclusão
Ignorar a ascensão do tecnofascismo é um luxo que a Europa não pode dar-se. O que se testa hoje em Minneapolis pode amanhã ser aplicado em Manchester ou Lisboa, graças a infraestruturas já pagas e instaladas. A Palantir não é uma empresa neutra; é um projeto político com ambições autoritárias. Enquanto os media britânicos se ocupam de disputas parlamentares triviais, o cerne da democracia a proteção da privacidade, a responsabilização do poder e a igualdade perante a lei está a ser minado por contratos secretos e parcerias inconsequentes. A hora de agir é agora, antes que o algoritmo decida quem merece direitos e quem merece ser apagado.
Foto: Freepik
Curadoria: Gerueb
Autoria do Texto Original: Carole Cadwalladr
Data de Publicação Original: 30 de janeiro de 2026
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